“CATAR FEIJÃO”, DE JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Catar feijão se limita com escrever:
Jogam-se os grãos na água do alguidar
E as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2.
Ora, nesse catar feijão entra um, risco
o de que entre os grão pesados entre
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.
Foi proposto que lêssemos o poema de João Cabral de Melo Neto, “Catar Feijão”, observando o nosso processo de leitura: como ele se dava, onde, como, quando, e como nos comportávamos ao lê-lo.
Observei que antes de ler o texto de verdade, o “encarei” algumas vezes. Olhei algumas palavras ao longo da página enquanto guardava o poema dentro da minha pasta. Em outro momento, cheguei a pegá-lo para lê-lo, antes do início de uma aula de outra matéria, no próprio ISE; porém, tudo o que fiz foi encará-lo novamente.
Finalmente, em um domingo, consegui pegá-lo de verdade: sentei e li o poema em meu quarto, antes de dormir. Confesso que o peguei quase que em um susto, lembrando da tarefa que deveria ser entregue 2 ou 3 dias depois daquele dia. Tentei ler na cama, mas depois de passar os olhos por todas as palavras, percebi que não tinha entendido quase nada da mensagem do autor.
Sendo assim, levantei, aumentei a intensidade da luz, e me sentei à mesa, para tentar lê-lo com maior atenção. E aí, deu certo! Depois de encarar o texto algumas vezes e lê-lo uma vez, na segunda, consegui!
O que eu entendi do texto: João Cabral compara o trabalho de um escritor ao do catador de feijão. Primeiramente, tanto o escritor quanto o catador jogam as palavras e os feijões em uma superfície onde seja possível analisá-los, e ver o que “presta” e o que “não presta” de sua última colheita, selecionando o que pode ser usado ou não. Ele aponta que sempre alguma palavra “boiará” no papel, assim como os feijões ruins bóiam na água.
Porém, durante esta “análise” de quais feijões / palavras poderão ser utilizados(as), há um risco: o de encontrar pedras no caminho e ter que lidar com estas pedras. João diz ainda que são as pedras que tornam todo o resto do feijão / poema mais rico e vivo.
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Um comentário:
Ah, as sutilezas de Cabral! Há diferenças entre o catar feijão e catar palavras. Leia novamente...
Márcia.
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