quarta-feira, 18 de março de 2009

Sobre DOM

Recebemos dois textos de Rachel de Queiroz que falam sobre escrita: “ A inspiração não vem para todos” e “Escrever”.
O primeiro fala sobre o duro processo de escrever – apesar de alguns considerarem escritores pessoas iluminadas, Rachel diz que a “arraia miúda escrevente”, no qual ela se inclui, não estão entre estes privilegiados.

“O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças "aquela" dom de nascimento que é a sua marca.
Pode ser que existam esses privilegiados - mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil. O processo todo é penoso e dolorido - e se pode comparar a alguma coisa, digamos que se parece muito com um processo fisiológico -, que se assemelha terrivelmente a uma gestação, cujo parto se arrastasse por muitos meses e até anos” (QUEIROZ, 22/03/2003, OESP, Caderno 2).

Já o segundo texto diz que existem alguns fatores essenciais para se formar um bom escritor. Um deles é o universo literato/letrado que está em volta do escritor aspirante – com pessoas exigentes ao seu redor, é necessário “apresentar originalidade ao lado da qualidade”, para que seu texto se destaque entre outros.

Outro fator que Rachel traz em seu texto é o “dom”: segundo a autora, “
Queiroz sustenta a idéia de que “Deus sempre é parco na concessão de dotes [...]” (QUEIROZ, 25/03/2000, OESP), ou seja, poucas pessoas “acumulam dons”.

Esta parte do texto me lembrou uma notícia que li há pouco tempo, sobre o presidente americano. Recém-eleito, Obama é um grande orador e seus discursos são ouvidos e elogiados no mundo inteiro. Porém, seguindo o raciocínio da autora, ele realmente recebeu o dom da fala, mas não o da escrita: por trás de seus grandes discursos, há um jovem de menos de 30 anos que escreve as palavras que o mundo todo espera para ouvir.


Segundo o blog Verdes Trigos, "É o próprio Barack Obama quem o diz: Jon Favreau é o seu “mind reader“. Aos 27 anos (e não parece um ano mais velho que isso), com muito café e muitas latas de Red Bull, Favreau não sabe apenas ler os pensamentos de Obama. Sabe também passá-los para o papel, estruturá-los, para que Obama os devolva às multidões, em frases eletrizantes. O discurso inaugural pertence-lhe também. Passou semanas e semanas a trabalhar nele. Hoje, tornou-se no mais jovem “speechwriter” presidencial de sempre".

O jornal New York Times conta o começo desta história: "Favreau tinha apenas 23 anos, acabado de se formar no College of the Holy Cross em Worcester (Massachusetts). Obama estava a ensaiar o discurso da Convenção, nos bastidores, quando Favreau, que fazia parte da equipa do candidato democrata às presidenciais, John Kerry, o interrompeu: havia um problema de ritmo no discurso. “Ele olhou para mim, um bocado confuso, tipo: ‘Quem é este puto?’”, conta Favreau".

Isto, realmente, só pode ser dom!

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