O QUE FAZEMOS QUANDO LEMOS?
Resumo do texto: KATO, Mary A. A natureza da leitura e da escritura. In: ______. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística. São Paulo: Ática, 2005, p. 59-77.
O ato da leitura é um ato bastante complexo e particular, que envolve vários fatores. O texto de Mary Kato nos apresenta alguns modelos que tentam esclarecer o processo que o leitor realiza enquanto lê, e também aponta alguns fatores que influenciam essa leitura.
Para ilustrar o que ocorre durante uma leitura, a autora nos descreve o seu próprio processo de leitura durante a formulação produção do texto “o que fazemos quando lemos?”: durante a leitura, em um primeiro momento, a autora deu uma rápida lida nos livros e artigos que lhe serviriam de base para escrever o tópico; depois, selecionou trechos e os leu com mais atenção. Em seguida, grifou as partes importantes, e questionou quando não concordava em algo com o autor. Paralelamente, leu em voz alta trechos que considerou mais difíceis de entender e também pulou trechos que considerou repetitivos ou previsíveis.
A autora está falando de um tipo de leitura específico - ler para estudar é o caso aqui, porque, para escrever, a autora teve que estudar o assunto. Este esquema se refere às estratégias que podemos usar quando lemos para estudar.
Além de diferentes estratégias que podemos utilizar ao lermos um texto, Mary Kato também nos apresenta 4 fatores que influenciam o processo de leitura:
Maturidade do leitor é o processo adaptativo dos propósitos da leitura segundo Gibson e Levin capacidade de estabelecer metas bem definidas e monitorar a compreensão, fazer sentido do texto e ler com objetivos específicos de busca de informação. Complexidade textual consiste em verificar se o conteúdo é familiar ou não e se o texto tem muitas palavras desconhecidas o que pode tornar o texto de difícil compreensão. Estilo individual faz uso de diversos processos como: adivinhar o texto, se ater às informações estritamente textuais, ler em voz alta ou usar mais de um desses processos. O gênero do texto identifica qual o tipo de texto que o leitor está lidando, como poesias, ficções, textos políticos etc. (essa compreensão está mal colocada e um pouco equivocada).
A partir do exemplo de como utilizamos estratégias diversas para ler, a autora alerta para o fato de que há vários fatores que determinam o uso desta ou daquela estratégia, tal como a maturidade do leitor (sua experiência de leitura), os objetivos que tem (se lê para obter prazer, para estudar, para buscar informação precisa etc.), o nível de complexidade do texto, o conhecimento que o leitor tem do assunto, as escolhas pessoais do leitor no que diz respeito ao modo (estilo) ou preferências quanto à forma como lê.
No decorrer do tempo, estudiosos têm se debruçado sobre a leitura para identificar o que ocorre enquanto lemos. Cada teoria descreveu um o processo sob um ponto de vista, porém a autora lembra que cada modelo propõe a compreensão de uma face do processo. E que todas essas formas de ler podem ocorrer em alguma circunstância na vida do leitor, dependendo dos fatores mencionados acima. É assim que precisamos entender os modelos que a autora descreve: como diferentes formas de se processar a leitura, que nunca ocorre de uma mesma forma nem para o mesmo leitor nem para leitores diferentes. As estratégias que “escolhemos” utilizar em determinada circunstância se definem em função da maturidade do leitor, dos objetivos que tem, do nível de complexidade do texto, do conhecimento que o leitor tem do assunto, do estilo individual. Por isso a leitura é um fenômeno complexo.
Para entender o processo de leitura, diversos estudiosos da língua desenvolveram possíveis modelos que explicam – ou tentam esclarecer - este processo:
Concepção estruturalista
Processamento de dados
Leitura sem mediação sonora
Análise pela síntese
Múltiplas hipóteses
Construtivista
Reconstrutor
Processo metacognitivos
Vamos entender melhor cada um destes modelos:
1. Modelo da concepção estruturalista:
De acordo com a concepção estruturalista a leitura é mediada pela compreensão oral, na qual o leitor produz, em resposta ao texto, sons da fala (ao ler em voz alta) ou movimentos internos (ao fazer uma leitura silenciosa), e é essa resposta estímulo que se associa ao significado. Nessa concepção a leitura é vista como um processo instantâneo de decodificação de letras em sons e sons em significado.
2. Modelo de Processamento de Dados:
As variantes desse modelo têm em comum a suposição de que qualquer tarefa cognitiva pode ser analisada em etapas ordenadas, iniciando-se com um estímulo sensorial e finalizando com uma resposta. Na versão de Gough o leitor identifica letra por letra, palavra por palavra e não “adivinha” as palavras.
Ler, segundo esse modelo, é “processar” os sinais gráficos em etapas: primeiro reconhecer a configuração da imagem geral, depois identificar letra por letra para traduzir pelos sons correspondentes e identificar na memória a palavra e seu significado na sentença. Nessa atividade o leitor usa o conhecimento fonológico e sintático que tem da língua para atribuir sentido ao enunciado. Esse modelo entende a leitura como linear e indutivo (interpreta partindo de partes menores para unidades de sentido mais amplas) e compreende uma estreita relação entre a oralidade e a escrita.
3. Modelo de leitura sem mediação sonora
Oposta à visão de Gough, a concepção de Luria compreende que o leitor aprende a reconhecer as palavras e as transforma em ideogramas visuais, ou seja, o leitor reconhece a palavra como um todo, uma imagem gráfica. Nesse sentido, pode sim adivinhar (antecipar) as palavras no processo de leitura, vista como uma atividade de reconhecimento e compreensão, sendo essa a concepção de leitura que deve ser entendida nesse modelo e não uma atividade que exige o som que levaria ao significado.
4. Modelo de análise pela síntese
A síntese consiste na construção de unidades hierarquicamente maiores, a partir de unidades menores, ou seja, sintetizar é a habilidade de generalizar um conceito a partir de um conjunto de informações específicas. Por exemplo, quando a criança compreende que b+a podem formar BA ou um detetive lê pistas para concluir quem é o assassino estão fazendo síntese (o raciocínio caminhou do específico para o geral, é indutivo). Porém, se o processo for inverso, isto é, se o pensamento partir de um todo para chegar a unidades menores, o processo é o analítico, ou seja, o raciocínio é dedutivo. Assim, o movimento que vai do geral para o específico é o modelo da análise. Quando a criança compreende a formação “co” e “ca” observando a palavra “coca-cola, por exemplo, ela fez análise.
Esse modelo de leitura supõe que o leitor utilize tanto a análise como a síntese durante o processo de compreensão do texto. Fazer análise pela síntese, supõe que o leitor usa o procedimento de síntese (compreende uma a uma as informações específicas para chegar ao todo) como um procedimento principal ou mais amplo. No entanto, durante essa operação, ocorre muitas vezes a necessidade de realizar análise, ou seja, de tomar uma dessas informações e decompô-la em partes para compreender seu sentido específico e poder usá-la na compreensão do todo do texto (realizar a síntese).
O uso da hipótese e da adivinhação (antecipação) fez com que Goodman definisse a leitura como um jogo psicolingüístico de adivinhação. Um mau leitor poderia então ser caracterizado tanto pelo uso excessivo de estratégias sintéticas (ou seja, fica preso nos detalhes do que está escrito e não antecipa, não supõe nada), como pelo abuso de adivinhações não autorizadas pelo texto (ou seja, antecipa muito, faz muitas inferências e não lê o que está escrito).
5. Modelo de Múltiplas hipóteses
Esse modelo amplia o anterior. Compartilha com ele a compreensão de que a leitura é uma sucessão de processos, cada qual comportando a formulação de hipóteses, sínteses de dados, confirmação (ou não) das hipóteses iniciais.
Existem propostas formuladas a partir dessa compreensão de que o processo ocorra em vários níveis, cada um dos quais cada um formula hipóteses alternativas: ele atribui sentido levando em conta o que já leu no texto, o que está escrito naquele ponto e as antecipações do que pode vir no texto. Destas, só algumas são selecionadas. A cada nível se tem decisões parciais coordenadas com as decisões tomadas em outros níveis.
Esse processo ocorre ora consciente ora inconscientemente.
6. Modelo Construtivista
Do modelo que entende a leitura como processamento de dados para o modelo que compreende o processo como análise pela síntese houve uma mudança significativa: a introdução do contexto como fator que afeta a leitura. Esse conceito, porém, restringiu-se ao do contexto lingüístico imediato, ou seja, o que vem antes ou depois daquilo que está sendo produzido e/ou entendido.
Os autores construtivistas ampliaram essa noção de contexto expandindo-o para além do lingüístico e englobando o que está fora do texto: a informação prévia, o extratexto. Segundo os construtivistas essa informação vem organizada em nossa memória como estruturas cognitivas, esquemas que nos permitem identificar e relacionar a informação prévia com a que o texto nos apresenta. Por isso, o sentido de um texto pode se fazer de forma diferente para diferentes indivíduos, dependendo dos esquemas cognitivos que possua previamente. Por isso também, o sentido do texto não está no texto , mas na interação do leitor com o texto.
7. Modelo Reconstrutor
A concepção reconstrutora tem como princípios pressupostos funcionalistas: enquanto os modelos anteriores tinham o ato da leitura como uma integração entre o conhecimento do leitor e a informação dada pela forma do texto, o modelo reconstrutor tem a leitura como uma integração do leitor com o próprio autor, em que o texto só fornece as intenções desse autor ao escrever e o leitor por sua vez tende a captar o porque do escritor estar dizendo isso ou aquilo e sobre o que o texto está se referindo. Esse modelo é baseado na tese de Levy, que diz que a leitura é um ato de reconstrução dos processos de produção.
Enquanto os modelos anteriores estão preocupados em descrever o movimento do leitor em recuperar o que o texto está dizendo, este modelo se preocupa em descrever a leitura enquanto movimento de compreender por que o escritor diz o que está escrito, quais foram suas intenções. Quando essas intenções não estão explícitas, o problema parece ser identificar quando o leitor compreende corretamente as intenções do autor.
8. Processos Metacognitivos
Quando um leitor atua sobre o texto conscientemente, formulando hipóteses e operando com as informações em busca de confirmá-las, ele domina o próprio processo de leitura e compreende como se dá o trabalho de atribuição de sentido. Monitora conscientemente seu processo de atribuição de sentido para detectar seus erros e corrigi-los. As estratégias metacognitivas caracterizam o comportamento do leitor maduro, já que derivam do controle planejado e deliberado das atividades que levam a compreensão.
PERGUNTAS
1. Os modelos de leitura explicam o processo que acontece durante a leitura sob uma óptica especifica. Algumas focam no som, outras na análise e síntese, etc. Leia o texto abaixo, observe e descreva o seu processo de leitura:
AUTOPSICOGRAFIA
Fernando Pessoa
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração"
2. Alguns autores defendem que a criança lê letra por letra, e assim, formando sílabas, descobre a palavra. Outros, dizem que com a sua experiência e maturidade, a criança "adivinha" a palavra que está por vir e vai fazendo suposições ao longo do texto. Com qual destas teorias você está mais de acordo e porquê?
3. Reflita sobre o seu processo de leitura para textos cientifícos ou quando lê para aprender. Como é este processo? Onde você lê? O que faz para guardar as informações importantes?
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